Documentário sobre Os Trapalhões revela a prepotência de Renato Aragão

7 set 2019

Gerações de brasileiros conviveram, uma vez por semana, com o humor caricatural e sem filtros produzido por Os Trapalhões, um dos maiores fenômenos da TV nacional.

Eram outros tempos, e Didi (Renato Aragão), Dedé (Manfried Sant’Anna), Mussum (Antônio Carlos Gomes) e Zacarias (Mauro Faccio) despejavam piadas inconvenientes sobre mulheres, homossexuais, negros, nordestinos e pobres em geral em pleno horário nobre, sem que ninguém reclamasse. Pelo contrário, faziam tremendo sucesso, e assim continuaram ao longo de trinta anos — um recorde mundial de permanência de programa humorístico no ar, devidamente registrado no Guinness.

Muito já se escreveu sobre a trajetória dos quatro, mas nem tudo foi contado. Uma série-documentário em fase de montagem, à qual VEJA teve acesso exclusivo, trata justamente dos ângulos não revelados da longa convivência dos palhaços que a audiência amou e aplaudiu durante décadas. Os bastidores abertos ao longo dos 62 depoimentos colhidos para a realização de Trapalhadas sem Fim, do diretor Rafael Spaca, expõem uma relação conturbada, com boa dose de ressentimento e divergências artísticas, de um lado, e de arrogância e autoritarismo, de outro, entre os três coadjuvantes — Dedé, Mussum e Zacarias — e Renato Aragão, o cabeça inconteste e o único multimilionário do grupo.

O primeiro racha dos Trapalhões aconteceu em agosto de 1983 e todo mundo ficou sabendo — a Globo passou seis meses exibindo reprises, enquanto se tentava pacificar os ânimos. O motivo era um mistério. Não mais. Testemunhas do desentendimento contam que o estopim da briga foi uma reportagem de capa de VEJA, “O Grande Palhaço — Por que Renato Aragão Faz Rir”, que evidenciava a condição de estrela maior de Didi, o que provocou ciumeira nos outros, e escancarava sua fortuna — esse, o empurrão fatal para a rebelião. Tamanha foi a raiva que Dedé, Mussum e Zacarias anunciaram o rompimento em uma entrevista coletiva, com Didi junto, sem saber de nada e pego de surpresa. Seguiu-se um período tumultuado, com cada lado fazendo trabalhos próprios (e fracassados) e Aragão estrilando com os “traidores” que o trocavam pelo trio de desafetos. Victor Lustosa, diretor assistente dos filmes dos Trapalhões até o fatídico 1983, conta a reação furiosa de Renato Aragão ao ouvir que estava de partida para a produtora rival. “Ele me falou: ‘você vai morrer de fome e não venha bater na minha porta depois’.” Mais cruel ainda foi a forma como dispensou sumariamente os três ex-colegas, ainda segundo Lustosa: “Não preciso deles. Posso fazer a mesma coisa tendo um cachorro, um macaco e um veado”. Não foi a primeira, nem a última, ofensa pessoal de Didi a Dedé, Mussum e Zacarias.

A reconciliação também é narrada pela primeira vez em detalhes: foi obra do empresário Beto Carrero, então sócio de Aragão, que os convidou para um encontro, sem que um soubesse da presença do outro. Para a surpresa dos presentes, os quatro se cumprimentaram cordialmente, o almoço no restaurante do Hotel Méridien, no Leme, Zona Sul do Rio de Janeiro, prolongou-se até o jantar e o grupo saiu de lá com as pazes feitas. Houve conversas emocionadas, troca de reminiscências e um novo acordo financeiro. Mussum puxou a reivindicação de aumento da participação dos três nos lucros. Aragão ofereceu, da parte do leão que lhe tocava, mais 1 ponto porcentual para cada um. Oferta aceita, decidiram retomar as gravações no dia seguinte. Estava salva a pátria trapalhona. Dedé também pediu e conseguiu a direção de quatro filmes do grupo. “Descobri uma paixão”, disse a VEJA. Ao longo do documentário, e nas conversas da reportagem com os entrevistados, fica patente a admiração de todos pela capacidade, organização e talento artístico de Renato Aragão. Não há, da parte deles, estranheza alguma pelo fato de Didi ser o trapalhão mais famoso e o mais rico. Mas, aqui e ali, pipocam críticas ao seu estilo de trabalho.

Por exemplo: contam que ele roubava as melhores piadas para si. Ferrugem, ator mirim no auge dos Trapalhões e que contracenou com eles na televisão e nos filmes, relata que certa vez perguntou a Wilson Vaz, redator do programa, por que estava aparecendo pouco.

“Ele me mostrou uma pilha de páginas de texto que havia escrito para mim, mas o Renato não deixou que me passasse”, relembra. José Lavigne, que dirigiu Os Trapalhões por alguns meses, confirma ser constante a intervenção de Didi na divisão das piadas. “Mas dono de programa não rouba, ele pega”, filosofa, pragmático. Várias pessoas da equipe mencionam ainda os comentários e as atitudes racistas a que Mussum era submetido. “Ele deixava bananas na cadeira dele”, conta a camareira Sirene Oliveira. “Meu pai não gostava disso de jeito nenhum”, disse a VEJA o filho do humorista, Sandro Gomes. Se a brincadeira de mau gosto acontecia fora do palco, Mussum mostrava sua irritação. No contexto do programa, ele revidava com saraivadas de piadas sobre nordestinos, em geral, e cearenses, em particular (Aragão nasceu em Sobral). Outros tempos, definitivamente.

Renato Aragão sempre foi o único a participar ativamente das reuniões de roteiro. Também atuava como produtor em todas as criações do grupo. “Não seríamos nada sem o Renato. Ele era o cérebro e eu, apenas um trabalhador braçal”, disse Dedé a VEJA. “Renato Aragão entendeu muito bem essa veia de humor popular brasileiro. Era o pau de arara ferrado, que sabe se virar e que sempre se dá bem no final”, afirma o consagrado cineasta Silvio Tendler, contratado pela Renato Aragão Produções para dirigir o documentário O Mundo Mágico dos Trapalhões, de 1981 (e lhe conferir algum verniz intelectual). “Eu tentei fazer um filme sobre o trabalho deles, mas o Renato queria uma antologia, uma peça de humor popular”, lembra Tendler sobre a obra que se tornaria o documentário brasileiro mais visto de todos os tempos, com 1,8 milhão de espectadores. Outra amostra de que quem manda pode: na fita, ele aparece sozinho em 29 dos noventa minutos. Os filmes dos Trapalhões foram arrasa-quarteirão: até hoje, são deles seis das vinte maiores bilheterias de todos os tempos. A popularidade do grupo se estendeu à audiência (no Rio, o programa chegou a ter mais ibope do que o quase imbatível Jornal Nacional), aos quadrinhos (3,1 milhões de exemplares, pareando com a Turma da Mônica) e à música — o disco Saltimbancos Trapalhões vendeu 100 000 cópias, feito extraordinário para a época.

Fonte: Veja

Veja mais notícias no www.uiraunanet.com.br, siga nas redes sociais: Facebook, Twitter, Instagram. Envie informações à Redação pelo WhatsApp